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3 de janeiro de 2009

"estado crônico: novo, velho e igual"

O tolo insistia em viver. O ano mudava, a idade também, mas nada mudava além dele mesmo, constantemente igual ao que queriam que ele fosse. Já havia ouvido tantas vezes a respeito de não esperar que as pessoas viessem procurá-lo, que buscasse estar com elas, com quem ele se sentia bem, mas como todo bom tolo, essas eram justamente as que não o davam atenção, mesmo quando ele as procurava. Às vezes, é difícil demais ser levado a sério e ele sabia disso...

Um dia escreveu seus sonhos, desejos e aflições em algumas folhas de um velho caderno semi-usado. Ao final de uma noite toda pondo para fora tudo aquilo, decidiu voltar e reler tudo e se envergonhou do que havia posto para fora. Não podia ser verdade, ninguém podia ser tão vil ou guardar tanto rancor e o pior, ele sabia que isso só fazia mal. Às vezes, é difícil demais se levar a sério e ele lutava contra isso, sempre...

No fim das contas, por mais que houvesse uma multidão a lhe cercar, ele estava na maior parte do tempo sozinho e pensou que, talvez, ser sozinho fosse sua dádiva. Não importava mais se as pessoas não se interessavam por suas estórias, se as estórias sempre ficavam pela metade e as pessoas nunca voltavam para ouvir. Não importava se as pessoas que ele considerava dignas de estarem ao seu lado, fossem na verdade, mais vis e rancorosas do que ele jamais pensou que ele mesmo fosse. Afinal, sua auto-imagem não era tão simples assim, era a mais deturpada possível, mas era assim que ele se via, e nada poderia mudar isso. Às vezes, ser alguém aquém do que se deveria é mais simples, mas não é o modo mais se confortante de se viver e ele queria estar além, mas sequer sabia o que era isso...

Ele era um solitário, independente de quem estivesse ao redor ou do quanto doía respirar, às vezes.


Da série "estado crônico"