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11 de setembro de 2013

"paternidade"

...ou "o cansaço pós-almoço de Dia dos Pais" 

Hoje está sendo meu primeiro dia dos pais como pai.
Há quase 4 meses nasceu meu filho. Hoje, houve um grande almoço em minha casa, mas alguns sentimentos não sumiram.
Dia dos pais sempre foi uma data de luto pra mim, pelo menos desde que tomei consciência de que havia perdido meu pai. Ele só pode viver dois dias dos pais como pai.
Somando-se a esse, vem um novo luto.
Exatamente, uma semana depois que meu filho nasceu, meu avô faleceu de um mal súbito, quando foi ao hospital com uma infecção. Ele foi enterrado no dia seguinte. Foram dois dias complicados.
Eu queria dar suporte em casa, ao meu filho, mas também queria estar com minha mãe. Ainda havia coisas do trabalho, do mestrado.
Na tarde do sepultamento, eu não consegui chegar a tempo de prestar minha última homenagem ao velho. Coisas do trabalho, apesar de eu sequer lembrar o motivo exato de meu atraso. Acabei não vendo o caixão descendo ao túmulo.
Ele também acabou não conhecendo meu filho. 
Os poucos dias de nascido não permitiram que recebêssemos tantas visitas, então, meu filho e meu avô acabaram não se conhecendo. Não deu tempo de levar meu filho pra casa de meu avô num domingo desses, pro almoço, futebol na tv. Em minha cabeça, ele conheceria o bisneto e lembraria dele quando o visse de novo, sem que o Alzheimer afetasse esse encontro.
Foram duas perdas, duas pessoas que eu gostaria que conhecessem meu filho. Dois pais. Fica a ausência.
Me disseram que ter um filho supriria essa ausência, mas meu filho ainda não me abraça, apesar de "conversar" comigo mais do que com qualquer um. Meu filho cumpre seu papel, me fazendo pai. Meu pai e meu avô também cumpriram os seus, mas acaba sendo diferente.
Fica o cansaço do dia, das visitas, da organização pós-almoço de domingo. E o dia não acabou. Ainda haverá o enjôo noturno antes de o bebê dormir, como acontece quase todo dia nos últimos meses.
Meu filho nasceu há quase 4 meses. 
Eu não sou mais o filho.
Que eu consiga ser pai.

***

da série "estado crônico"

11 de agosto de 2008

"ausência"

Foi na sua ausência que eu cresci. Na grande falta de um dos pilares que promovem o desenvolvimento de crianças. Podem dizer o que quiserem, não é tão fácil assim essa ausência. Mesmo quando substituído, essa figura também virou ausência.

A memória é seletiva, mas no meu caso, as lembranças que se referiam a ele não existem. Um buraco negro repleto de fotos antigas de momentos em que sequer me reconheço nelas. Minhas lembranças não existem, mas àqueles que o conheceram fazem questão de compartilharem sempre essas selecionadas memórias de momentos que o faziam único, a partir de todas suas qualidades.

Falar em memória de quem se foi é sempre assim: em nome da moral e dos bons costumes tende-se a valorizar os feitos, as qualidades em detrimento às coisas ruins cometidas e seus defeitos. Por isso, que uma das coisas que mais gostaria de saber é “quais eram os seus defeitos?”, “quais foram seus crimes?” ou “sentia-se ele tão sozinho quanto eu?”.

Dizem que muitas das qualidades dele são partilhadas por mim e assim fica mais fácil de entendê-lo, mas os defeitos, esses parecem se perder, em meio à penumbra de momentos que se esvaem na memória de quem ainda é vivo e o conheceu.

Passar o domingo, foi algo complicado, como sempre é. Um domingo de Dia dos Pais sempre dói um pouco mais. Vem sempre acompanhado de uma sensação de ausência, acompanhada de uma dor no peito e então, a certeza: ele nunca esteve aqui, ou pelo menos, não esteve aqui muitas vezes, por mais de vinte anos.

Sempre tem alguém que comenta que eu não posso sentir saudade de algo que praticamente não conheci. Sempre respondo que não sinto saudade, sinto raiva por não ter tido momentos o suficiente com meu pai para lembrar dele, de sua voz, de suas brincadeiras. Sinto raiva pela falta que me fez e por ter tido tantos problemas que me levaram a procurar em vão essa figura paterna por tanto tempo. Por fim, acabo quase sempre relegado a ausência de não ter tido uma figura paterna, mesmo quando ela foi substituída anos depois.

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