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29 de março de 2010

"estado crônico: melancólica segunda"

Está quente como o inferno aqui. As pessoas entram e saem desse grande salão, dividido por cubículos nos quais insistimos em seguir nossas vidas. O barulho incomoda, assim como a falta de consciência nessa tarde densa de segunda-feira.
Aproveito meu intervalo para olhar bobagens pela internet na certeza de que isso tudo não me trará resposta alguma. Pessoas morrem, pessoas são presas, pessoas insistem em permanecer pelo mundo.
É chato estar aqui, fato! Não sei se lá fora está tão melhor assim. Não existe calmaria por aqui: os espíritos gritam por paz, o ar vai ficando cada vez mais pesado e assim seguimos uma vida em que a melancolia dos dias insistisse em tirar cada gota de suor e transformar em uma oração. Mesmo assim, nunca seremos perdoados!

***


Da série "estado crônico"

4 de setembro de 2009

"estado crônico: cada qual..."

Essa história começa pelo fim de outra:

O casal estava há 20 anos juntos e tinha um filho de 19, quando decidiram viajar para aproveitar um pouco a vida. O casamento acabou naquela viagem quando o marido pediu, no meio de um banho sensual partilhado por ambos, que a esposa usasse de forma diferente a escova de cabelo e inserisse-a na sua retaguarda. Ela relutou, mas cedeu e depois disso, nunca mais conseguiu olhar pro atual ex-marido.

Com o tempo, passou a desconfiar de cada homem que lhe passasse pela frente: o encanador forte e musculoso, o mito responsável por maior parte de suas fantasias sexuais, caiu por terra devido a um “ui” após acidentalmente uma chave inglesa cair no seu pé. Não tinha dúvidas! Até Seu Manoel, o bigodudo português dono da quitanda parecia menos homem para ela.

Como não havia deixar de ser, sobrou inclusive para o seu filho. Principalmente depois que ela ficou sabendo que seu ex não só malhava na mesma academia que Juninho, seu filho, como também já havia dado “umas voltas” com o instrutor marombado de musculação. Para ela, toda aquela sensibilidade de Juninho da qual ela tanto se orgulhava, começou a parecer sensível demais. Ela nunca sabia para onde ele saía, nunca havia conhecido uma namorada dele, nunca sequer havia achado revistas de mulheres nuas ou coisa do tipo no quarto de Juninho, e ele, que nunca tinha feito mal a ninguém (exceto às prostitutas nas quais ele batia depois do ato, como um complemento do próprio ato), passou a sofrer a repressão machista de sua mãe.

Um dia, no meio de uma discussão acalorada entre mãe e filho por causa de uma camisa de botão aberta até a metade, ele não agüentou e deu um tapa no rosto da mãe. Atordoado, saiu da sala e se trancou no quarto, mergulhado em sua vergonha. Na sala, a mãe prostrada com a mão a segurar a face vermelha e quente, aturdida pela situação pensava: “Nossa! Faz tempo que não me sinto tão mulher!”

No fim das contas, é cada qual com seu cada qual.

***

Da série "estado crônico":
edição diferentemente igual, ou igualmente diferente, whatever...

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