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21 de agosto de 2012

estado crônico: (tentar) crescer

Acordou, mas não abriu os olhos. Havia dor por trás deles, havia dores no corpo. Havia ressaca sem álcool, fruto de uma noite triste. Decidiu permanecer com os olhos fechados, lembrando da dor que lhe fez chorar até dormir.

Tomou coragem e abriu os olhos e como uma dessas maldades do mundo, a primeira coisa que viu foi o porta-retrato, com a foto daquela garota que sempre lhe sorria pela manhã. Se não ao lado, na cama, do outro, no criado mudo. Era duro amanhecer com mais paixão no coração do que quando foi dormir.

Um banho, um café, compromissos e as dores de cabeça. Metrô lotado, mas pelo menos havia um lugar para se sentar antes de encher. Uma vibração estranha na perna, um susto, uma mensagem de bom dia da garota da foto. Parecia bom sentir-se com mais vida, naqueles lapsos de momentos em que ela faz sentido.

As variações entre querer ser adulto e querer ser jovem na simples mudança da música nos fones de ouvido, mas aí o dia já tinha ido embora e já em casa, chorou de novo por estar só, por não ter a garota da foto ao lado de novo e a certeza de que aquela paixão só aumentava com a distância e a saudade. Tomou os comprimidos, deitou e chorou de novo até dormir olhando pra foto.

Claro que acordaria com dores, claro que tudo se repetiria, exceto por uma paixão latente, mas também era claro que, “querer crescer” não significa “crescer” e mais uma vez, sentiu-se em paz por saber que só faria 17 anos uma vez e que manter uma postura séria nessa idade não deveria nem ser cogitado.

***

da série "estado crônico"

12 de agosto de 2012

Trilha Sonora: Dia dos Pais

Esse é um daqueles que chorará sangue quem tem "daddy issues"
Uma trilha sonora "diferente" para o dia dos pais.

música escrita pelo guitarrista da banda em homenagem ao pai falecido
Dream Theater - Take Away My Pain (Demo Version)
Letra



música do Raulzito que mais me lembra meu pai
Raul Seixas - SOS
Letra


às vezes, o que falta é uma "ponte"
Queensryche - Bridge
Letra

clássicos são clássicos por transcenderem tempo e espaço
Fábio Jr (sem o Fiuk, pfv)- Pai
Letra



Raulzito de novo e vocês que se lasquem...
Raul Seixas - Carimbador Maluco (Plunct Plact Zum)
Letra

uma lição para filhos e pais
Ugly Kid Joe - Cats on te Cradle
Letra


piração de Rock Rural que a Lethicia me lembrou
Zé Rodrix, Sá e Guarabyra - Jesus numa moto
Letra
The Spirit Carries On

[Nicholas:]
Where did we come from?
Why are we here?
Where do we go when we die?
What lies beyond
And what lay before?
Is anything certain in life?

They say, "Life is too short,"
"The here and the now"
And "You're only given one shot"
But could there be more,
Have I lived before,
Or could this be all that we've got?

If I die tomorrow
I'd be all right
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

I used to be frightened of dying
I used to think death was the end
But that was before
I'm not scared anymore
I know that my soul will transcend

I may never find all the answers
I may never understand why
I may never prove
What I know to be true
But I know that I still have to try

If I die tomorrow
I'd be allright
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

[Victoria:]
"Move on, be brave
Don't weep at my grave
Because I am no longer here
But please never let
Your memory of me disappear"

[Nicholas:]
Safe in the light that surrounds me
Free of the fear and the pain
My questioning mind
Has helped me to find
The meaning in my life again
Victoria's real
I finally feel
At peace with the girl in my dreams
And now that I'm here
It's perfectly clear
I found out what all of this means

If I die tomorrow
I'd be allright
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

Feliz Dia dos Pais! [2012]


As lembranças que tenho de meu pai são indiretas, passam por outros formatos e relatos até chegar a mim. Essas memórias são multifacetas: são fotos que nunca me explicaram o contexto; é a lembrança de um velho vídeo que foi devorado pelo mofo e perdido pelas caixas esquecidas de meus tios, que em um curtíssimo trecho havia um registro da voz do velho; são as lembranças de meus primos distantes, com quem pouco falo, que se lembram de momentos divertidos com o Tio Barba, sempre ouvindo Raul Seixas; é a memória do relato de um tio, melhor amigo de meu pai e que também faleceu anos depois, de como aconteceu o acidente, tudo confirmado pelo atestado de óbito, que uma vez achei pelas gavetas de minha mãe; sou eu, sendo visto pelos irmãos dele e ouvindo “ele parece muito com o Antônio”.
Há anos, eu tento compor o quadro, montar o quebra-cabeça com informações que se complementam, mas também se contradizem. Ao mesmo tempo em que o relatam como um grande cara, justo e decidido, outros apontam para problemas de saúde. Nada é certo, afinal são memórias e hoje, com 28 anos depois de sua morte, encontro-me em meio a uma encruzilhada de ausências, pois não sou pai ainda, mesmo tendo um apreço muito grande pelos meus alunos em quase uma década de magistério, mas também não sou filho, pelo menos, não sou o filho de um pai. Não poderei abraçá-lo hoje e dizer que o amo.
Depois de tantos anos, compreendi que esse quebra-cabeça de lembranças talvez nunca pudesse ser completado. Sempre faltarão peças, já que ele não está mais aqui. Mesmo que as lembranças cheguem perto de completá-lo, isso nunca o trará de volta. Lembrança e esquecimento, dor e resignação, no fim das contas, ele não está aqui, não importa o quanto eu lute. Brigo para não esquecê-lo, luto para manter viva em mim a sua memória, mas tenho consciência que se lembro dele, é porque esqueci outras tantas coisas, e se o esqueço, mesmo que por algumas horas, é porque havia tantas outras coisas para lembrar.
Se ser adulto é difícil, sem uma figura paterna é algo realmente complicado... agora vão lá abraçar os pais de vocês que nem ir no cemitério visitar o túmulo de meu velho eu posso.
Passar bem!

6 de agosto de 2012

estado crônico: Amor em tempos de autopunição



Amar não dói, não mata, não mutila.
Amar não arranca pedaço, não transforma o coração em pedaços, não lhe decepa a cabeça (a ponto de perdê-la).
Você que faz tudo isso. Você que escolheu esse caminho. Sim, foi você que se dispôs a amar, a entregar-se de corpo e alma a alguém que (invariavelmente) iria quebrar seu coração, mas ei, não foi ela. A culpa ainda é sua.
Sempre que se ama, machuca-se. Pode ser pouco, quase nada, como uma ligeira mudança de rotina. Pode ser algo violento e brutal, a ponto de lhe fazer desejar nunca ter nascido. Quando se entra nesse jogo, dificilmente se ganha, constantemente se perde.
Você escolheu esse caminho, aceitou o amor. Contudo, ele não durou, minguou e morreu do outro lado, apesar de você ainda acreditar que ele esteja contigo (talvez, mas só contigo, então...). Refaça-se e não se jogue em desejos disfarçados de prazeres que na verdade são drogas que lhe manipulam, alucinam, sangram, arrancam pedaços. O comer demais, beber demais, fumar demais ou o que quer que seja por causa de amor vai lhe empurrar pra dentro de si, para o único lugar em que esse amor ainda mora e vai lhe sugar a vida. O abismo passa a ser sua morada e, nem sempre, sair é tão fácil.
Cada escolha sua, em nome de alguém que lhe amou e que você ainda ama, levar-lhe-á para mais fundo nesse abismo de escuridão. Você morre um pouco mais (do que já se morre a cada dia) por causa desse amor, e aí se vão os pedaços mutilados, a dor da perda, o coração em frangalhos.
Apesar disso tudo, há um elemento na equação que faz com que isso faça sentido: você está só! Sim, só, sem ninguém. Ninguém vai saber qual é a sua dor, ela é só sua e de mais ninguém. Ela é específica e, de certa forma, é ela quem lhe define. Ou melhor, é o modo como a suporta que lhe define. Aqui, surgem duas variáveis: abrace a dor, aceite a perda e levante a cabeça lá do fundo do abismo que você verá o céu; ou combata a dor (com mais dor) e nunca deixe o abismo, e pior, sem olhar pra cima, nem a esperança vai lhe restar.
Como falei, a culpa é sua. Agora engula o choro, aceite a derrota (não é a primeira e nem vai ser a última), junte os cacos e siga em frente que ninguém falou que iria ser fácil crescer...


***

da série "estado crônico"

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